Xadrez, o que é xadrez? A gente nunca teve apoio

São Paulo foi palco da semifinal do Brasileiro de Xadrez, e o campeão baiano Paulo Jatobá não pôde ir. Motivo? Falta de patrocínio. Apaixonado por xadrez, há um mês ganhou o título de mestre internacional(Correção - Mestre Fide), mas apoio que é bom, nenhum. O negócio é dar prioridade a outras coisas na vida, como o quarto semestre de engenharia de minas e petróleo na Universidade Federal da Bahia.

A paixão pelo xadrez e a esperança na difusão do esporte, no entanto, permanecem firmes, reveladas neste bate-papo com a repórter Danile Rebouças para o A TARDE Esporte Clube.

ATARDE | SemifinaldoBrasileiro em São Paulo e você aqui na Bahia.

Como pôde acontecer? PAULO JATOBÁ | Infelizmente, eu não pude ir jogar, mesmo ganhando a vaga.

AT | E se rolasse patrocínio? JATOBÁ | Muito provavelmente, eu iria sim.

AT | Como é lidar com a vontade de querer participar de competições e não ter recursos, em uma cidade onde há mais interesse em patrocinar shows de axé music? JATOBÁ | Para mim, é estranho contar isso. A gente sentiria uma diferença brava se tivesse patrocínio e agora não tivesse mais. Mas a gente nunca teve. Sempre viajei para torneios tirando o dinheiro do meu bolso ou do de meu pai.

Agora que já estou meio velhinho e tem que ser do meu bolso mesmo, é mais complicado ainda.

AT | Você chegou a procurar algum tipo de ajuda para participar do Brasileiro? JATOBÁ | Não. Há oito anos, eu batia nas portas com título de campeão baiano, já com tudo, procurando patrocínio e o pessoal me perguntava: xadrez? O que que é o xadrez? Isso é forte... Complicado você receber uma resposta dessa.

Aí, vez por outra, você perde a esperança disso, foi o que aconteceu comigo.

AT| NãohánoEstado programas de apoio para quem pratica o xadrez? JATOBÁ | Temos o FazAtleta, que é excelente, mas você tem o grande problema de encontrar pessoas que em vez de patrocinarem 100%, patrocinam 20% e você continua com dificuldades.

AT | Como andam os preparativos para este torneio? Já conseguiu o patrocínio? JATOBÁ | Tivemos uma audiência com o prefeito João Henrique e ele disse que a prefeitura conseguiria o dinheiro, mas a gente está só na burocracia à espera que o dinheiro realmente caia na conta.

AT | Quais seriam outras dificuldades enfrentadas por quem quer levar o xadrez como profissão? JATOBÁ | O problema de não poder ensinar. Qualquer profissional de xadrez, mesmo que conheça e pratique o esporte há 20 anos, não pode ensinar em escolas particulares ou públicas porque é preciso ser professor de educação física, já que se trata de um esporte. Então você só ministra aulas de xadrez dentro da lei se você tiver um curso superior de educação física.

AT | Você acredita na valorização do xadrez em Salvador? JATOBÁ | Existe gente querendo criar ong para que ele comece a ser jogado nas escolas, mas eu não sei como chegar lá. Sei que a gente pode dar uma olhada nas tentativas que deram certo, como em Cuba.

AT | Em quem se espelha? JATOBÁ | Valery Salov. Ele é um cara fantástico, que infelizmente parou de jogar por problema de saúde. Ele é da antiga União Soviética e mora agora na Espanha.

AT | Que poderia ser feito para desenvolver essa mentalidade? JATOBÁ | Poderia usar o modelo de Vitória de Conquista. Estima-se que há mais gente na cidade que jogue xadrez do que pratique futebol.

Xadrez é ensinado desde a escola e vai até a faculdade, já que cursos têm a matéria xadrez.

AT | Então, a realização de um torneio brasileiro em Salvador seria a sua meta ainda este ano? JATOBÁ | Sim, a gente está torcendo, mas torcendo muito que isso aconteça ainda este ano. Esta é uma competição que vai possibilitar muito contato com jogadores de fora. Se você continua jogando só em Salvador, você cresce, você se torna um bom jogador, mas pára por aí. Em qualquer esporte você precisa ter o contato com pessoas de fora. No caso do xadrez, essas pessoas te mostram diferentes maneiras de você ver o jogo.

' “Sei que a gente pode dar uma olhada nas tentativas que deram certo, como ocorreu em Cuba”

' "Se você continua jogando só em Salvador, você se torna bom jogador, mas pára por aí”

* QUEM É | Paulo Fernando Jatobá de Oliveira Reis, mais conhecido como Paulo Jatobá, nasceu em Salvador, em 1973. Aos 6 anos, começou a jogar xadrez, ensinado por seu pai. Oito vezes campeão baiano, já foi terceiro lugar na disputa do Brasileiro de jovens e ganhou o título de mestre da federação internacional de xadrez.

Desde 1993, começou a ensinar inglês, paralelo à participação em competições. Atualmente, ele também estuda engenharia de minas e petróleo na Universidade Federal da Bahia.