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A capivarada contra uma lenda
Paixão Barbosa
O clima de festa, que envolve toda organização de simultâneas, não foi suficiente para esconder uma certa apreensão dos enxadristas adultos, especialmente daqueles que, como eu, tiveram sua atenção despertada para o esporte da deusa Caissa pelo noticiário a respeito daquele gaúcho, jovem e franzino, anunciado como o novo gênio do xadrez mundial no início da década de 70. Afinal, ali estava, na nossa frente, não apenas o Grande Mestre Internacional Henrique da Costa Mecking ou o Mequinho, mas uma lenda em carne e osso, um homem que, não bastasse o seu brilhantismo enxadrístico, ainda cometeu a façanha de desafiar a morte e superar uma doença que os médicos diziam incurável. Neste clima é que na última quinta-feira, sentei-me à mesa, no salão nobre da Casa D'Itália. E com o único propósito de oferecer a maior resistência possível, uma vez que ganhar ou empatar seriam opções cabíveis apenas nos sonhos. Cautelosamente, coloquei-me entre dois jogadores de nível similar ao meu, o tranqüilo e experiente Mauro Jucá à esquerda e o jovem e talentoso Felipe Fontoura à direita. Assim, teria com quem trocar informações, num processo de ajuda mútua contra o temível adversário. E chegou o momento. Mequinho, sem pensar, moveu o peão da dama para a quarta casa (d4) e passou adiante. Com bastante tempo para pensar, decidi pela velha defesa Índia do Rei, que é sólida e conduz a uma partida estratégica. E, no seu retorno, joguei meu cavalo para a casa f6. Na seqüência natural da defesa, ele jogou c4 e, aí, sem saber porque (emoção? ansiedade?), mudei de plano e optei por um jogo mais aberto (o que logo se mostraria a algo como meter a cabeça na boca do leão), avançando meu peão de dama, de forma destemida, para a casa 5 (d5). A partida mudou de rumo e comecei a me perder até que, no nono lance, entreguei de vez a partida, na tentativa maluca de querer ganhar um peão. Bem ao seu estilo, Mequinho revelou a gravidade do meu erro e partiu para o massacre. No lance 18 eu estava com uma torre a menos em troca de apenas um peão, ou seja, completamente perdido. Para evitar que a partida entrasse na categoria de vexame, decidi ir até o "limite da elegância" – que recomenda ao enxadrista em situação similar, na qual a derrota é somente uma questão de tempo, não insistir e admitir a vitória do adversário – realizei algumas manobras de cavalo, ameacei sua dama, fiz umas gracinhas e abandonei no 23º lance. Apesar de tudo, uma experiência fascinante. Afinal, não é todo dia que você pode cometer uma "capivarada" (ou, como se diz em outros esportes, uma "pixotada") contra um Grande Mestre e enfrentar uma lenda. Até por isto, fiz questão do autógrafo. Meus parceiros tiveram sorte um pouco melhor. Felipe ficou perdido logo cedo, mas optou por insistir, mesmo numa situação de penúria, com duas peças e dois peões a menos. Mauro Jucá sim, jogou ao seu estilo, cauteloso e sólido, garantindo uma posição mais equilibrada, embora com peão a menos. Levou a partida até o final, quando o talento e a capacidade de Mequinho fizeram a diferença. E a ajuda mútua, como era de esperar, não funcionou. |