COPA SIGMA RELOADED(IMPRESSÕES VIRTUAIS E CRIATIVAS DO AUTOR QUANTO À XIV COPA SIGMA DE XADREZ) Por Luiz Cláudio Guimarães - Introdução O grande encontro do enxadrismo baiano transcorreu na plenitude do azul da placidez marinha. Dos tabuleiros, desviávamos as vistas de vez em quando, mas apenas para apreciar o espetáculo natural da paisagem litorânea. Desta feita, o nível técnico da Copa foi muito elevado. Por ela, concorrendo estavam campeões de diversos estados, um Mestre Fide além dos destaques locais. Eclético demais, contou o certame com a participação de figuras humanas as mais variadas. Mas, mesmo com todo exotismo natural dos praticantes do esporte, desta vez houve uma completa superação. - Homem-bomba à vista! Ouviram-se murmúrios de admiração e assombro, quando adentrou no palco do evento um garoto pálido dos seus 16 a 17 anos, magro, cerca de 1,70 de altura, cabelos negros encaracolados, portando óculos de lentes grossas. Parecia em tudo um garoto (a)normal de sua idade, não fosse o traje de impacto que vergava: calça de moletom preto, tênis da mesma cor, uma t-shirt branca, porém sobre esta uma espécie de jaqueta preta na qual se acoplara uma bolsa costal, então bastante carregada. Por força do sistema de cores, ocorria uma aparente unidade entre os elementos do traje, integrando-os. Colaborava com isso a atitude do cordial contendor que não se desvencilhava nunca da bolsa ou da mochila, no receio talvez de perder o seu, quem sabe, Endgame Strategy de Shereshevsky. E com grande probabilidade perderia mesmo... Pois bem, a imagem que se projetara no salão com o ingresso do talentoso jogador, portando aquele marsúpio costal, foi a de um libanês ensandecido que estivesse prestes a explodir o Quartel de Amaralina! Apenas o seu sorriso cordial pôde dar fim a essa expectativa... Por essa simples razão, nós passamos a tratá-lo como o Homem- Bomba! Ainda que, na condição de homo sapiens sapiens, encontre-se na escala dos adolescentes imberbes e sem o poder explosivo que os seus homólogos do oriente detêm. – Sem poder explosivo disse eu?! Pois bem, o rapazinho, que não era outro senão um outrora vice-campeão brasileiro infantil, detonou brilhantemente a maior parte de seus parceiros. - F7, o ponto G! Por outro lado, sempre circulado por uma platéia atenta a suas palavras e aos seus menores movimentos, estava o perdedor do match com Karpov em Sauípe pelo apertado placar de 1:0. Este declarara que depois de enfrentar Kasparov, nunca encontrara em sua vida um melhor tocador de blues no violão do que ele próprio: o Monstro de Sauípe. Era este o personagem que envolvia o ambiente com sua presença enigmática e terrível. Mesmerizava os fãs com uma simples opinião: “Peão da torre não, Brodinho!” Todos dirigiam então o seu olhar para o peão do bispo do rei quando então ele dizia: “O fundamento está em f7! Este é o ponto g do xadrez!” Uma monstruosidade pontificando suas últimas descobertas (monstruosas!). - GM Pedro, o Ruivo (Leia-se geme Pedro, o Ruivo!) Mas nem todos os participantes podiam se exibir com tanta tranqüilidade e desenvoltura. Alguns até que preferiam passar despercebidos. Este é o caso do Grande Mestre Pedro Rúbio. Jornalista, Pedro, o Ruivo, também conhecido como “O Terrível”, antes portador de uma densa cabeleira acaju. Tempo em que deu ensanchas à produção de uma fúria incontida no Grande Monstro, em razão de uma crônica apimentada que fizera do célebre encontro em Sauípe. Dentro dos piores princípios e práticas da Guerra Fria, partidários dos dois contendores, a partir daí, vêm semeando suas versões antagönicas na mídia internacional. Assim, tanto se diz que Karpov aproveitou o encontro com Egas simplesmente para “reaparecer” para o mundo, após o seu ocaso, quanto se afirma que o Egas apelou para um Pai de Santo para tentar descobrir um modo de sair da Arca de Noé estilizada que Karpov armara para seu bispo. E, nessa mesma vertente, difundiu-se a notícia de que o Monstro Baiano teria quase desestruturado o GMI de tanto lhe contar piadas no French Quartier! Elucidar a verdade que jaz sob essas versões é coisa de uma vida. Mas o Grande Mestre Pedro Rúbio, este sim, teria incorporado com clareza hialina os interesses bolcheviques (cabeleira acaju por fora, vermelho por dentro, tal qual um melão transgênico), utilizando sua matéria jornalística para fazer apologia à hegemonia enxadrística russa, revelando desprezo a um tupinambá soteropolitano que se limita a “dar empurrões nas peças”, como diz o Mestre Nacional Hemar Barata do alto de sua autoridade científica e verve: “dedilhando a peonada no tabuleiro...” - Shredder x Shroeder! “Shredder não é Shroeder!” Dito isso pelo Grande Monstro Egas, fica evidente que o último é o Chanceler atual da Alemanha e o primeiro, um programa de xadrez. Um manda na política; o outro, no xadrez. Mas a distinção é apenas nominal, porque, de fato, na atuação real os dois domínios se interpenetram. Como diz o Monstro: “É um só o horizonte de eventos, sob uma dimensão macro.” Propugna-se, pois: Shredder manda em Shroeder! - A Vingança Naquele dia, ao lado dos devaneios políticos e metafísicos, o Grande Monstro tinha também no seu horizonte o evento da vingança! Falem mal da vingança, hipócritas, mas admitam que ela é um prato friamente saboroso. Uma maravilha, um manjar dos deuses (ou demônios, tanto faz!). Ela é um buraco negro que atrai toda sorte de estrelas, a única justiça ocasionalmente disponível. Êpa, estamos falando da vingança como justiça no Xadrez! Olha lá, hein!? Figura despojada, elegante e cordial, mesmo assim o Monstro não dispensou os rituais clássicos de invocação. Cinco minutos após o início da sexta rodada, eu ainda o esperava na mesa 12. Ele: em colóquios. Apenas depois de acionado o relógio, com 1 minuto a menos no tempo, e só depois de pronunciadas as palavras sacramentais por cinco adolescentes virgens: “Com os poderes das trevas, eu vos invoco Monstro Egas!” Mas corta! Antes tem que ser narrada a partida entre o Grande Monstro e o Grande Rúbio. Melhor ainda, tem que se esclarecer que o Rúbio não era mais o mesmo. Sua cabeleira agora era negra. Incrivelmente negra como as asas da graúna. “Nero como gli amori solitari. Piu nero del nero, di piu!” da música italiana. Tem que se dizer mais ainda sobre o que dissera o tal noticioso a respeito do Grande Monstro: “Que ele era o maior capivara da Bahia e que aquele dia em que perdera para Karpov foi o seu dia de Tigre”! E tome explicações sobre o “jargão” capivara... Nada sobre a partida. Nada sobre felinidades. Nenhum elogio. A foto publicada: um desastre completo. Nenhum retoque. O Monstro compareceu no jornal com a cara de quatro horas da manhã! Agravo leonino. Bolchevismo puro. Podemos narrar a partida agora. Pedro Rúbio tenso aguarda sentado. Aciona o relógio e o Monstro atrasa propositadamente. Coisas do show business. Acossado, ele repassa mentalmente as variantes: “se ele jogar esta, eu jogo aquela, se ele apelar para a ignorância e jogar aquela outra, eu salto de banda com a surpresinha do bispo voltando.” O tique-taque do relógio. Pedro já se sentia mal na posição em que mentalmente se colocara. Estava já meio derrotado quando o Grande Monstro, chegou, chupando balinha de hortelã, sentando-se do lado oposto. Pedro se lembra do oráculo que consultara pela manhã: “O oráculo sabe tudo?!” A partida tem início. Tigre x Melão. Um de Pretas o outro de Brancas, claro! A ordem dos fatores pode até alterar o produto. Tudo depende da embalagem. Ou melhor: perderam-se tantos tempos que a questão das cores perdeu a importância. O que interessava mesmo era o transcurso do embate. E principalmente a carga psicológica do encontro. E o Tigre procedeu com sua burocracia usual, despachou por lá, alguns toques aqui e acolá, umas empurradas de peão. Resultado: 1 x 0 para Monstro Egas. Pedro fornecera o resultado levemente desapontado: “Perdi..”Agora é só esperar dar no Jornal. A foto a ser publicada é a de 20 anos atrás: aquela da formatura (único dia da vida em que o Brodinho envergou um paletó). - O Oráculo Pedro voltou ao oráculo: “Como você já sabia...?” Resposta: “Você ainda teria perdido, se eu não tivesse dito coisa alguma?” Esta questão é controvertida, Caro Leitor. Tente resolver. Esta derrota possui um fundo de auto-punição? Ou seria a constatação de que existe um destino pré-estabelecido para todos nós? E se a Matrix (leia-se: Shredder) estiver no controle do oráculo? - O Autor x o Monstro Retornemos à minha partida. Na minha vez, o Monstro atende a invocação da legião de adoradores e vem. Senta-se à mesa. Está renovado. É veloz e decidido. O tempo voa. O Monstro se aperta. Chupa bala e contra-ataca. “Um Tigre de papel?” A cada xeque, ouve-se o trincar dos caramelos nos seus dentes/presas. Há perigo no ar. O Monstro não calcula. Confia no destino: “Sul quell sasso c’era scritto. C’era scritto sul quell sasso.” Ele não distingue as cores das peças (vide a cena da metempsicose infra, digo do sonambulismo!): “Ataque é ataque”, diz, para o delírio dos seus adoradores de todo o mundo. Faço alguns riscos na estrutura de sua carapaça. Mas ele não conhece o perigo, aliás não conhece nada! Perde qualidade, recupera qualidade. Não se abala. Depois de alguns constrangimentos inclusive no relógio, despacha a lide diplomaticamente para um empate. Alívio para ambos: imaginem se eu tivesse vencido o Monstro Egas! No mínimo, eu me tornaria também um Monstro. A perspectiva de ganho do torneio para mim estava excluída desde a primeira partida do domingo (4a. Rodada), quando joguei com o Paterson com 15 minutos a menos por força de um atraso que tive. Paterson por ser muito forte, por si já constituiria bastante problema para mim. Sem comentários. - O Monstro x Homem-Bomba Mas a grande sensação da Copa estava na expectativa do encontro entre o Grande Monstro Egas e o Homem-Bomba! Este encontro que não houve no mundo real, apenas por força de uma conspiração do notebook do árbitro que não promovera o emparceiramento. Mais uma da Matrix! Acontecido no mundo virtual da imaginação o gládio tomou a proporção dos combates entre Neo e o(s) Smith(s). Tanto o é, que contam os conquistenses hospedados no apartamento do Egas (ora tombado como patrimônio do Clube de Xadrez de Vitória da Conquista, com pedido de imissão de posse já deferido ao insigne Capablanca, seu Presidente) que, na madrugada do dia 24.11, o Monstro balbuciava lances enunciados em notação descritiva, altercando com um interlocutor invisível: “Peão de b2 não, Homem Bomba!” Depois de meia-hora de luta, cinco promoções a Dama, 250 gritos de “xeque”, “xeque”, “xeque” ... a partida dera se por concluída. O Monstro saiu do quarto em estado de sonambulismo e comeu, melhor devorou, todos os mantimentos trazidos pela delegação para a merenda de fim de tarde. E, ainda, dizem que tomou as mamadeiras dos gêmeos, pensando que eram cervejas do Bar do Clube da Pituba. Aproveitou e comeu ainda os biscoitos negrescos que Roberto Lima e Jacajaca da Bahia esqueceram em cima da pia da cozinha, num dia desses de regular perturbação a que submetem o amigo desde que se conheceram no Clube Baiano de Xadrez. As meninas rezavam. Os gêmeos choravam abraçados, pedindo pela loba! Para arrematar, em delírio sonambúlico o Monstro desenhou a giz um tabuleiro no piso do apartamento com 128 casas (todas da mesma cor!) e gritou diversas vezes: “Heureca! Heureca!”. Este poltergeist matrixiano só se resolvera quando uma bela enxadrista de Vitória da Conquista se fez passar por Judith Polgar e pediu um autógrafo ao Grande Monstro... - Fala Sério! Esses são os bastidores da Copa Sigma. Mas nem tudo são lítero-cassetadas (numa alusão às vídeo cassetadas). A Copa teve muitos momentos emocionantes. O primeiro deles foi o meu ao enfrentar uma jovem enxadrista de, no máximo 10 anos, aluna de Hamilton Rabbat. Concluída a partida, repassei-a conjuntamente com minha adversária, mostrando-lhe as falhas que a conduziram à derrota. No que fui educada e prontamente ouvido. O pai coruja presente fez questão de testemunhar as análises, mostrando grande solicitude. Vê-se que a boa educação também se herda. A segunda emoção, grandiosa, foi proporcionada por força de uma “palestra” a que me convidaram para proferir antes da 5a. Rodada. Na oportunidade, falei um pouco sobre a memória do xadrez baiano, trazendo ao público os nomes inolvidáveis de Francisco Marotas, Salinas, Ruth Cardoso e Otávio Fonseca. Deste último, destaquei uma partida em que empatara com Dr. Max Euwe em uma sua visita à Bahia, coisa de algumas décadas atrás, pérola esta que me fora repassada pelo próprio Otávio há cerca de 10 anos. Sobre o grande médico dermatologista e enxadrista postal de escol, com vitórias assinaladas sobre Mário Pacini (MI) dentre outros, falei do seu desenlace físico no mês de setembro/03. Enfatizei a sua dedicação ao xadrez e o amor aos conceitos éticos e estéticos que sua prática preconiza. Também fiz lembrar a todos que, em nome da família, eu destinaria uma parte dos livros de xadrez a mim legados pelo nobre amigo à biblioteca do Clube Baiano de Xadrez. Fiz referência ao xadrez postal para lembrar a todos que a maior e mais bela combinação que tive notícia tem como autor o Dr. Lafayete, fundador do Clube de Feira de Santana, presente no encontro, em atenção ao qual eu também fiz a promessa de encaminhar uma parte dos livros legados pelo saudoso Dr. Otávio Fonseca. Fiz ainda a proposta de realização de um memorial com o seu nome. E pedi a todos que quando lessem esses livros que o fizessem com a reverência, o respeito e a compenetração de quem examina um trabalho intelectual de envergadura, porque de fato aqueles documentos indicam a trilha da formação intelectual de um homem cujo pensamento revelou-se muito poderoso e útil à sociedade do seu tempo. Foi feita ainda respeitosa alusão ao Mestre Renée Pratt, emérito fundador do Clube Baiano de Xadrez, e ao Ilustre Mestre Nacional Dr. Pinto Paiva, numa breve referência à sua trajetória de campeão. Prestadas as homenagens de estilo, conclamei os jogadores para uma participação esportiva baseada na urbanidade e na consideração mútua. Concluí o meu discurso, agradecendo a oportunidade a mim concedida pelo patrocinador do evento, o M. Digno Gilvan Quadros e a atenção imerecida que tive de todos, especialmente do Nery e do Calheiros, ilustres visitantes da Terra das Palmeiras Imperiais. Após isso, Caíssa acendeu as paixões nos campos enxaquetados do tabuleiro. - Desfecho: A maldição do oráculo. No encerramento da contenda, o Paulo Jatobá, guerreiro em perigos e guerras esforçado, confirmava a maldição do oráculo: “Tu estás careca de saber que poderás até ganhar um brasileiro, mas a Copa Sigma não!” (Qualquer semelhança entre fatos ocorridos e pessoas vivas com os fatos narrados neste texto não pode ser tomada como mera coincidência!) FIM |