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“Em homenagem à Professora
Terezinha Coelho, pioneira, visionária e incansável defensora da
implantação do ensino do xadrez nas escolas públicas.”
Por
Luiz Cláudio Guimarães – Presidente da Academia Pal Benko em Juazeiro.
Autor de A ROSA DOS RUMOS.
Acabo
de chegar da XIII Copa Sigma de Xadrez. Este evento que é o must
do enxadrismo brasileiro transcorreu em clima de grande cordialidade e paz
na sede do Quartel de Amaralina em Salvador. Um festival da inteligência e
da cultura. Mais do que isso: da amizade. Um show de talentos e mulheres
bonitas. Para concordar com essa assertiva, caro Leitor, você deveria
conhecer a moreníssima Fernanda Hashizume, tri-campeã brasileira, que lá
compareceu no final apenas para distribuir seus gentis cumprimentos...
(Quase nos desconcentrou!) O torneio contou com mais de 110
participantes. Dentre eles o Grande Mestre Internacional, Giovanni
Vescovi, com quase 2.700 de rating. Um dos 30 melhores do mundo!
Naturalmente, o vencedor do certame.
Nós estávamos lá principalmente para ganhar... experiência! E rever os
amigos velhos que pensam equivocadamente que o caminho para o interior é o
mesmo do desterro, ou quem sabe execução da pena de ostracismo! Ledo
engano, pois, muito pelo contrário, por aqui se possibilita o
aprimoramento de todas as artes...
Depois dos discursos, relógios acertados, jogadores prontos. Início do
torneio.
Na primeira rodada, peguei um rapazinho nervoso que cometeu logo um erro
na abertura. Meu primeiro ponto. Esta cortesia foi por conta do sistema
suiço de emparceiramento, onde, no início, a metade mais forte dos
concorrentes enfrenta a metade tecnicamente mais fraca. Cético, eu sabia
que o pior viria.
Na segunda rodada, peguei um jogador experimentado que tentou utilizar um
velho sistema de Lasker na Ruy Lopez, para o qual não tenho encontrado
muito desenvolvimento teórico. Resultado: tive que refutar ali mesmo lance
a lance. Dois pontos no bolso!
Na terceira rodada, peguei o rapazinho (Diogo) que viria a ser o terceiro
lugar. Caí numa posição da Pelikan (Variante Sveshnikov) onde eu tive
vantagem de abertura. Desconsiderei o adversário e sacrifiquei um cavalo
por três peões. O garoto achou os únicos e fiquei inferior. Sem querer
“chorar as pitangas”, como diz o GMI Vescovi, é bom que se esclareça que a
namoradinha do adversário, portando adolescentemente aquele típico
aparelho ortodôntico, recusava-se a levantar da mesa onde transcorreria o
jogo. Essa descontração baiana terminou por me prejudicar pois, durante a
partida, as minhas mãos nervosamente tremiam ao movimentar as peças. Perdi
a partida e teria voltado para Juazeiro na mesma noite não tivesse na
segunda-feira um compromisso profissional em Salvador. O sentimento foi de
prejuízo duplo pois havia perdido também a possibilidade de fazer amizade
com duas novas pessoas!
No dia seguinte, na quarta rodada, já restabelecido do aborrecimento,
estava inspirado. Na mesa 8, o colega e amigo Egas Campos. Desenvolvemos
um enxadrismo cordial, cheio de amabilidades mútuas, mas sempre visando
arrancar o couro do Rei do outro! O Egas de peças brancas se fechou todo
contra a minha Índia do Rei. Eu planejando o assalto de oficiais e peões.
Em determinado momento, perdi a iniciativa. E lá vinha o Egas com suas
gentilezas estratégicas de piores intenções... Sempre devagarinho. Uma
risadinha aqui outra acolá. Uma balinha de hortelã, um agrado... e tome um
Cavalo em cinco do Bispo. Daqui a pouco, me invade a ala da Dama. E eu
penando, esperando a hora. Quando surgiu a oportunidade, meti-lhe,
simpaticamente, um contra-ataque. A posição do velho amigo ruiu como uma
torre de fubá. Ele fez cara feia! Eu disse: ”É a vida, amigo Egas!!”
Mandei-lhe o xeque-mate! Com esta, eu me animei porque sofrera muito na
defesa... Enfim, estava pronto para atacar com as Brancas, querendo
vingar-me do avexo de ter ficado me defendendo o tempo todo. Karl Marx
tinha razão quando escreveu que “Tudo que é sólido se desmancha no ar!”
Reflita...
Na
quinta rodada, peguei ninguém mais ninguém menos do que o Campeão
Sergipano atual, Ney Lúcio. Leitor amigo, eu não sabia quem era o rapaz
alto e forte que se sentou à mesa 13. Parecia um halterofilista. Parecia
o Schwarzeneger do xadrez! “Egas mandou o primo dele me pegar!” (Pensei).
Mas, o tal desconhecido alto jogava pra burro. Refutou meu avanço de peão
a4, na Defesa Siciliana, utilizou um sistema Scheveningen alterado.
Fiquei meio zonzo quando perdi o Peão da Torre! Mas pensei: "Boa
porcaria!" Ele ia demorar para fazer a digestão do Peão, reposicionando o
Cavalo. Aí, eu pensei: "Vou fazer um ataque sobre o Roque de João Grandão
(Desculpem-me, mas eu não me lembrava do nome dele, durante a partida) e
sacrificar peças até dar mate!" Daí em diante, minhas escolhas eram
tranqüilas e racionais. Tudo de caso pensado. Vi o gigante se amofinando,
piorando, piorando... Aí eu ousei encará-lo. Lá no fundo dos olhos. Sabe o
que vi? - desprezo. Desprezo puro pelo incômodo que lhe causava. Mais ou
menos assim: "Pra o Diabo se você pensa que vou perder essa partida,
capivara!" Gostei. Eu retruquei com raiva (em pensamento): "Vou almoçar
o Rei de João Grandão!" Empunhamos as armas - digo os Bispos! Ele trocou
logo o de casas brancas porque era com ele que eu abriria caminho para h7.
Habilidosamente, o grande jogador (e jogador grande!) tentou conter meu
intento, me devolvendo o Peão que ele comera. Em vão! Eu queria o peão e
as vísceras de sua Majestade. Onde estavam os juros e a correção
monetária?! Meu cardápio era o Rei dele! Minha Torre foi a agá três. A
coisa foi ficando feia. Ele se travou todo na defesa. Eu achei uma chance
tática, consegui avançar um peão para f6. O Rei dele retornou à oitava
linha, aguardando o mate, enquanto uma de suas Torres ficara presa na casa
agá oito. O resto foi uma luta de duas Torres na sétima contra uma só. O
gigante quis fingir indiferença. Percebi sua decepção. Balancei as mãos de
lado e murmurei: "É a vida!" Um bolo de gente ao redor da nossa mesa.
Quando fiquei sozinho, alguém disse: "Você ganhou do vencedor do Zonal
deste ano!" Aí eu quis saber mais sobre aquele jovem tão talentoso.
Alguém respondeu: "É o campeão sergipano atual!" Reconheci baixinho:
"Joguei bem pra burro!" Enquanto isso, o Ney, ainda na salão do torneio,
se retirava educada e vagarosamente. O risco, a vitória, a derrota e a
morte são inerentes à condição humana. E todos que morrem nascem para a
vida eterna, segundo Nosso Senhor Jesus Cristo!
Agora eu estava com quatro pontos. Mas aguerrido, violento e
imaginativo. Tinha sido batizado.
Novo emparceiramento. Na sexta rodada, o grande Reinaldo Lima! (foi
finalista do baiano várias vezes). Um tático. Demonstrou isso na partida.
Entre tentativas, planos e sacrifícios realizados, ele bolou e fez mais de
quatro. Jogou magistralmente, agudizando uma posição em que eu manteria
uma progressiva vantagem estratégica de boia constrictor (o nome
científico da cobra jibóia). Dentre seus sacrifícios pensados e feitos, eu
recusei dois, contra-sacrificando peões para impor a continuidade da
vantagem posicional. Evitei os demais. No ataque que empreendi, o Rei
negro entrou em pandarecos, ao ser extraído da casa b8 para passear pelo
mundo do tabuleiro. Quanto ao meu Rei, só fora encontrar abrigo na casa
efe dois! Sob o abrigo de um Cavalo. Recorri ao ensinamento do Adriano
Barata: “Contra Cavalo, Dama não apita!”. Porrada dos dois lados. E o
tempo encurtando. Aí, de súbito fiz uma ameaça tripla. Todas minhas peças
direcionadas para o Rei negro. O velho amigo Reinaldo primeiro teve que
abandonar um Bispo, para depois perder a Dama. Arrematei a partida no
apuro de tempo. O adversário não acreditava no que via. Alguém comentou:
"Esse cara é lá de Petrolina ou de Juazeiro. Não sei de onde, mesmo. Mas é
lá do jebe-jebe!" (Esta expressão não consta do meu Aurélio). Lembrei-me
do filme: “Esqueceram de mim...” Felizmente!
Sétima e última rodada. Um calor sadio na minha fronte queria dizer que
eu estava pronto para enfrentar o dinhanho! Mas na quinta mesa, sentou-se
de Brancas o tranqüilo Marcus Vinicius. Roberto já o alertara: "Cuidado,
Vinicius! O Doutor está parelho comigo no relâmpago." (Bondade do Mestre
“Brodinho do Ping”). Eu pensei quando apertava as mãos de Vinicius: "Acabo
de ganhar pelo menos R$ 600,00 de prêmio!" Ele, de Brancas, despachou
convicto o Peão da Dama. Sentei-lhe uma KID (Kings Indian Defense).
Ele agressivo querendo o ponto, invadiu a casa d5 muito precocemente.
Optei por uma troca de Bispo de casa branca por Cavalo do Rei, redefinindo
a estratégia. Em dez minutos de jogo, eu havia expulsado o Cavalo dele do
ponto cinco Dama e o meu pairava altaneiro em d4. Aos quinze minutos, fiz
uma combinação e ganhei um peão. Acompanhando os tempos, mantive-os
parelhos para evitar os imediatismos improvisadores nas injustas
conclusões dos apertos no cronômetro. Aos dezessete, eu sentia-me ganho.
Porém, com uma falha minha (cansaço imenso, depois de um dia inteiro
jogando, sem almoçar... – assim mesmo, melhor se, em absoluto, não o
tivesse feito naquele dia!), num lance de Torre, ele pam, conseguiu
recuperar o peão. Trocamos o resto das peças. Final de bispo de cores
opostas. Empate acordado. Fiquei com cinco pontos e meio! Senti as notas
de cem Reais fugindo dos meus bolsos.
Quando o patrocinador do Torneio, Gilvan Quadros, anunciou no microfone
meu nome, dizendo-me representante da Região Sanfranciscana, citando todas
minhas titulações pessoais, levantei-me, embolsei R$ 100,00 de premiação
(senti-me com R$ 100.000,00), recebi minha medalha e fiz um discurso
emocionado, agradecendo a todos. Fui muito aplaudido!
No rescaldo do genocídio enxadrístico, alguns ex-campeões baianos
excluídos dos primeiros dez lugares! Na esteira do meu desempenho, o
convite para integrar uma equipe que jogará um match contra o
estado de Sergipe e vários exemplares de A ROSA DOS RUMOS vendidos!
Fiquei muito satisfeito. Que os amigos velhos não se irritem com os
comentários irônicos e brincalhões que acabo de fazer. E com justa razão
que o cozinheiro não se incomode por ter me referido pública e
generosamente à horrível feijoada de sua lavra, servida no transcurso do
evento, como “rancho”. O que me importa mesmo é que espero vencer a Copa
do ano que vem (aliás como todo mundo espera!). A esperança é uma flor
tão bela que todos nós devemos cultivá-la, mas com o trabalho
principalmente. Por isso é que já comecei a regá-la, ou melhor, digo
treinar-me... |